Estação Primeira do Inverno

Um inverno difícil esse ano em Paris. Longo, cinza, com pouca luz e muita neve. Eu, pessoalmente, adoro neve e sou igual criança quando vejo os primeiros floquinhos do ano caindo, sempre de maneiras diversas; às vezes pesada como uma chuva, às vezes dançando de um lado para o outro como um baile de penas, às vezes como se a neve caísse de baixo para cima. De vez em quando, como o nosso apê tem duas frentes, e a neve cai de jeitos diferentes dos dois lados e aí fico lá, assistindo, mais embasbacado do que a nossa gata com essa magia que é ver floquinhos brancos caindo do céu.

Mas o problema é que, após quase quatro meses de frio pesado, não há fantasia e lirismo que aguente, o que a gente quer mesmo é verão.

As estações do ano na Europa são muito bonitas e na França ainda são mais definidas, com tudo o que tem de mais bonito de cada uma delas. No outono, eu adoro andar por cima das folhas caídas, fazendo aquele barulhinho crich, crich, quase chutando uma nuvem de folhas ao mesmo tempo que caminhamos. Ano passado foi por pouco que não fiz como na historinha do Cebolinha, em que ele varre as folhas e o Cascão se joga em cima delas, repetidamente.

Depois vem o frio e tudo vira cinza, fumacento, ombros encolhidos, cara feia, lábios rachados e chocolate quente. Os galhos secos das árvores apontam para o céu como raízes de cabeça pra baixo e os dias ficam curtos, curtos, até chegar a um momento em que não dá para ficar pior. E nesse momento, que os dias começam a ficar, lentamente, maiores, começa oficialmente o inverno. Até então era só um outono metido a inverno. Passa janeiro, passa fevereiro, todo mundo verde de bolor e neguinho já começa a ficar feliz quando faz 8 graus. E aqui estou eu, torcendo pra fazer mais do que oito graus nos próximos dias, torcendo pra poder sair de camiseta de manga curta pela primeira vez em, sei lá, seis meses?

Primavera, estação mais aguardada do ano, mais até do que o verão, já que é o primeiro sinal de vida depois de semanas e semanas de secura. Brotinhos das árvores brotando, o verde se espalhando como uma mancha, no chão e em cima, tapando o céu que começa a ficar azul de verdade. E a vida volta a existir. E em menos tempo do que se esperava começamos a pensar que nunca foi diferente e que vai ser verão pra sempre. Mas o verão passa férias na Europa, ele não mora por aqui. Não demora muito para o vento do outono chegar, de mansinho e se instalar de repente. Já já, inverno de novo!

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